A dimensão, seja do que for, é tão relativa quanto o tempo e o espaço. Levo meia-hora a caminhar pela baía, desde as Portas de Peniche ao Baleal, sempre pela areia, e percorro uma distância de 4 Kms. E daí? Fico meia-hora mais velha, logo com menos meia-hora de vida, mas, ainda que não tivesse percorrido aquele espaço, a meia-hora ter-se-ia gasto, e restar-me-ia, da mesma forma, menos meia-hora de vida. Ou será que ganhei meia-hora de vida pelo facto de ter percorrido a baía em vez de ter ficado estiraçada ao sol?
Tantas dúvidas, tantas respostas que os físicos e os matemáticos procuram, mas também os gnósticos e os ascetas, de um modo diferente, com base nas antigas religiões e no que as respectivas doutrinas defendem e profetizam, e afinal, imagine-se, acabam por se encontrar todos na inenarrável Teoria de Tudo. E não é que o big bang e o big crunch e a segunda lei da termodinâmica dos cientistas nos levam exactamente aos mesmo pontos de partida e de chegada que o judaísmo, o cristianismo, o islão, o hinduísmo, o budismo, o taoísmo?
Agora pergunto eu, o que fazemos nós aqui? Por que razão existimos? E se não existíssemos, se não passássemos de figuras imaginadas, sonhadas por Ele, o Senhor do Universo, farto de estar só nesta imensidão que, provavelmente, será infinita. Ou não. E se Ele anseia pela morte, pelo descanso ao qual poderá nunca ter direito? Somos completamente incompetentes para o ajudar. Nós, que nem sabemos quem somos, nem se foi Ele que nos inventou, para se distraír... e se Ele também não existe? O que é esta história? Uma farsa, uma tragicomédia inventada por quem nunca passou de um mito... e, no entanto, o Universo está aí, com todas as estrelas, nebulosas, planetas, cometas e galáxias em contínuo movimento... ou será que tudo não passa de uma ilusão? Mas ilusão porquê, para quê e para quem? E se o Princípio da Incerteza for a porta para a Teoria de Nada?
"Raios partam a vida e quem lá anda", dizia Álvaro de Campos, se é que alguma vez houve um Álvaro de Campos, que não era mais do que um dos heterónimos de um outro ser mais complexo que o criou, esse poeta de excepção a quem chamamos Fernando Pessoa, mas a quem poderíamos, por absurdo, chamar deus. Seremos todos nós pequenos deuses que criamos o mundo à nossa imagem, de acordo com a criatividade e vontade de cada um?
Ná... os cientistas não vão nessa, e os teólogos também não.
O que eu sei, neste momento, é que a minha gata ocupa o espaço em cima do écrã do meu computador. Eu vejo isso e quero acreditar (porque preciso de acreditar nalguma coisa) que as dimensões são uma realidade, tal como o espaço que ocupam e o tempo que qualquer micro-partícula demora a deslocar-se de um local para outro (ou será que pode estar em vários locais ao mesmo tempo, dependendo apenas da existência de um observador que comprove que ela tem vida, naquele sítio e momento, porque ele a vê, naquele exacto local, naquele preciso instante?)
Sabemos tão pouco de tudo. Por vezes, gostaria de ser como os que se contentam com o que têm, o que conhecem, o que julgam saber, e não se preocupam com os porquês. Tiveram, certamente, a idade dos porquês lá para os quatro ou cinco anos e ficaram satisfeitos com as respostas. Vivem felizes assim. (A minha idade dos porquês deverá durar os meus anos de vida e, apesar de tudo, não acredito no que acabei de afirmar, ou seja, que aqueles que a ultrapassaram na infância, vivam hoje felizes e contentes. Apenas se acomodaram a fazer de conta que sim!...).
"Hoje é o primeiro dia" do resto deste novo espaço, aqui e agora criado. Nele pretendo associar, sempre que possível, imagens a palavras, e vice-versa.
O meu mundo constrói-se e desmorona-se, no quotidiano, com umas e outras. Desta mal destrinçada amálgama surge, frequentemente, o que sinto como arte. O que vivo. Quase tudo o que me perturba e enlouquece. O que amo. O que me faz manter à tona de água e querer sempre subir mais alto, em busca do provavelmente inatingível, mas ainda assim desejado, até prova em contrário.
Hoje não há imagem. Basta a palavra.